tutorial

Revelar com Cafenol

Começar a revelar a preto e branco em casa de modo pouco regular... Qual o revelador mais adequado? Essa foi a questão que surgiu no inicio, tendo como resposta o Agfa Rodial, esse nobre e fiável amigo de 1891. Conhecido por durar e durar sem se deteriorar por tempo quase indeterminado e relativamente fiável. No entanto, aparece muitas vezes como sendo um óptimo revelador a baixas velocidades, criando bastante grão nas mais altas. E se quiser usar filmes mais sensiveis, o que fazer? Há uma grande gama no mercado, sendo a sua maioria com validade curta ou em pó, tendo-se que fazer 5 litros de cada vez ou métodos menos recomendáveis...


E que tal usar café? Já tinha visto este processo descrito, tendo, segundo alguns, um comportamento semelhante ao Xtol, revelador conhecido. Este "novo" químico, de seu nome cafenol apresenta logo à partida uma série de vantagem: se não usar-se parte dos componentes bebem-se, relativamente barato, à mão e sobretudo ecológico!


Assim, passe-se aos 4 componentes do cafenol:
1. Café instantâneo - O mais fácil. Encontra-se em qualquer grande superfície. No entanto há estudos e testes que comprovam que a qualidade do mesmo poderá ter uma influência (quase imperceptivel) no resultado final. Mas comecemos com um de supermercado.

2. Carbonato de sódio (sem bi no principio) - Já tinha usado na cianotípia, tinha em casa. Chama-se a atenção que é diferente do bicarbonato de sódio, usado na cozinha. Na minha experiência descobri estar presente em duas situações no dia a dia: pó para subir PH nas piscina e soda (leve ou densa). No formato de soda é (era) normalmente usada para lavar apetrechos como barris de vinho e superfícies ligadas à indústria vinícola. Passivel de ser encontrado em lojas ligadas à especialidade e drogarias. Arranjei soda leve em pó numa loja de restauro para móveis a 3,60 euros 1kg. Importante: tem de ser em pó (devido à existência de outras sub tipologias que se apresentam em cristais. Este formato é menos adequadas)

3. Ácido ascórbico, também conhecido por Vitamina C - foi-me sugerido o Celeiro, no entanto, como se poderá imaginar, há mais que um ácido ascórbico e o de ingerir não estará propriamente puro. Assim, para não complicar, preferi comprar numa casa de material para laboratório, a Vlab devido à pressa (um pouco mais caro: 25,30 euros 100 gramas). Encontrei também no Ebay a valores muito mais baixos.

4.Brometo de Potássio - da família do sal, também comprado na mesma casa a 14 euros por 100gr. Como a quantidade é residual, nem vale a pena procurar em mais locais.

 

Receitas

Existem várias receitas disponíveis na internet, tendo acabado num Blog onde as experiências são mais conhecidas e de resultados mais consistentes. O do senhor Reinhold Ele propõe 3 receitas base ajustadas para o tipo de utilização a ser dado. Verifiquei que há toda uma comunidade que se baseia nas mesmas. Se funciona com os outros, funcionará comigo. No blog encontra-se muito exemplos do seu uso. Consegui perceber que a receita mais ajustada para o meu caso, velocidades mais altas, seria a Caffenol CH. No entanto não encontrei nenhum exemplo com o Ilford HP5+ a 400. Assim continuei até encontrar a Bíblia  das receitas de Cafenol. Aqui verifiquei uma variação à receita CH, oferecida pelo senhor Eirik Russell Roberts, a de Caffenol CH(rs). Através da diminuição da quantidade de carbonato de potássio, o PH é mais baixo diminuindo o contraste, melhorando a imagem. Após ver esta imagem, passou a fazer ainda mais sentido.


Preparação

Ao invés de fazer uma "litrada" de revelador, converti os valores para 300ml.
Começa-se por misturar o café numa garrafa com 150ml de água e a parte de carbonato noutra separada com a mesma quantidade. Isto tem por objectivo garantir que tudo estava muito bem diluído antes de juntar ambos os componentes e evitar a reacção logo à partida quando se junta o ácio ascórbico com o carbonato de sódio. Depois, junta-se ambas as soluções e o brometo de potássio. Faço a ressalva que, como a receita convertida só pedia 0.3 gr de brometo de potássio, optei como diluir uma grama em 10ml de água, juntando posteriormente 3ml à solução.

 

Se pensaram, como eu, que temos agora um revelador com cheirinho a café, desenganem-se que aquilo cheira quase a esgoto!

 

Revelação:

 

13 minutos para começar, normalmente. Sem qualquer tipo de alteração do processo.
Há apenas a nota que fiz um passo intermédio de tirar o máximo de cafenol possível com água antes do banho de stop (tornando-o praticamente inútil) para o poder reutilizar este segundo banho em revelações mais "convencionais".

 

Algumas fotos da Canonet carregada com Ilford HP5+ revelado por 13 minutos com cafenol:

revelação com caffenol

revelação com caffenol

revelação com caffenol

revelação com caffenol

revelação com caffenol

revelação com caffenol

 

 

Considerações finais

 

 

Respectivamente ao Rodinal, há, sem dúvida uma melhoria relativamente ao grão; o cafenol é um revelador com resultados interessantes em situações com pouca luz e bastante versátil: várias pessoas estão a usá-lo para revelar C41.

 

 
Posso partilhar que no Blog do senhor Reinhold  (e não só) vi imagens reveladas a 3200 e li comentários de pessoas que depois de usarem Xtol e afins, ao passarem para o cafenol, nunca mais quiseram outra coisa. Além disso isto é uma fórmula que (aparentemente) resulta muito bem em filmes "mais nobres" como os Tri-X e afins.
 
A nível do aspecto, o negativo não apresenta grande diferença relativamente aos outros processos (Rodinal e C41) tendo a densidade relativamente normal, tendo em conta que o usei tanto de noite como num dia de sol na rua (à sombra, está claro). 

 

Para finalizar, há que lembrar que, visto sermos nós a misturar os componentes, torna-se, ao contrário dos reveladores de compra, poder criar uma receita que melhor se adeqúe às nossa necessidades, nomeadamente em assuntos como o contraste. Mais isso serão outras guerras mais à frente!

 


Um agradecimento especial ao Gonçalo Matias, todas as fotos da sua autoria e publicadas com permissão.

 

Referências:

www.caffenol-cookbook.com
caffenol.blogspot.pt

 

O mundo pelo buraco de uma agulha

A Câmara Escura

A fotografia pinhole (do inglês buraco de agulha), é uma técnica alternativa de fotografar, despojando a câmara de todos os acessórios supérfluos, voltando à sua essência absoluta: a câmara escura.

A câmara escura não é mais que um compartimento completamente estanque à luz, em que numa das faces é feito um pequeno orifício (orifício estenopeico), pelo qual passa a luz, produzindo na face oposta, uma imagem invertida de cima para baixo e da esquerda para a direita.

A primeira representação deste dispositivo data de 1544, mas este teria sido descoberto muito antes. No entanto, a fotografia teve que esperar muitos anos até ser inventada, em meados do século XIX. Primeiro descobriram-se os materiais sensíveis à luz, e só algum tempo depois se descobriu a forma de fixar as imagens.

 

«The Reflex Box Camera Obscura››, de Johann Zahn, 1685

 

As Câmaras Pinhole

Já se produziram câmaras pinhole de tudo, desde latas de café, caixas de madeira ou cartão, salas inteiras, até mesmo o interior de uma carrinha. Mas todas têm as mesmas coisas em comum: são estanques â luz, e foi-lhes feito um, ou vários minúsculos orifícios, por onde esta passa. Também se pode usar uma câmara reflex à qual se retira a objectiva, cobrindo o bocal com material isolante, e, claro, um furo.

Para produzirmos uma câmara pinhole com um caixa pré-existente, é necessário pintá-la, pelo menos pelo lado de dentro com uma boa camada de tinta-spray preta mate, e proteger todos os pontos por onde possa passar a luz com fita-cola isolante preta. Se a caixa for de metal fino, podemos fazer directamente o buraco na mesma, com a ajuda de um alfinete. Se for de cartão, podemos abrir um buraco maior na caixa e colar-lhe um bocado de metal com um furo (ex: invólucro de rolo fotográfico). O furo deverá ser maior quanto maior for a distância focal da câmara (distância entre o furo e o papel).

Quanto menor for o furo, mais nítida será a imagem, no entanto, se o furo for demasiado pequeno pode causar o fenómeno de difracção, distorcendo a imagem. Os furos devem ser limados pelo menos do lado inverso de que foram feitos. É muito importante que se tenha um mecanismo de “obturação', que não é mais que uma tampa que deverá tapar o buraco quando não estivermos a fotografar. Há várias fórmulas matemáticas para calcular os tamanhos dos furos a fazer, e centenas de técnicas para realizar câmaras pinhole, mas não há uma certa. O importante é criar imagens que nos satisfaçam e deixarmo-nos surpreender pelos resultados.

exemplo de câmaras pinhole
exemplo de câmaras pinhole

Os Materiais Fotossensíveis

Qualquer material do quaI possa surgir uma fotografia, serve como matéria sensível para fazer pinholes: Polaroids, chapas de negativos, rolos de 35 ou 12omm de negativos ou diapositivo a a cores ou a preto e branco já foram utilizados nesta técnica. Neste tutorial vamos usar papel fotográfico por ser o meio mais prático.

 

Fotografar com uma Câmara Pinhole

Para se fazer uma boa fotografia, em quaIquer técnica, é necessário obter o valor de exposição correcto para cada situação. Este valor está diretamente relacionado com a quantidade de Iuz que sensibiliza o material fotossensível Na fotografia pinhole, a única forma de controlar o valor de exposição é com o tempo de exposição. É necessário um maior tempo de exposição quanto menor for a Iuz disponível. Neste tipo de câmaras , os tempos de exposição de uma fotografia pinhole podem ser bastante elevados (desde 15"a várias horas). Por isso, é necessário pousara câmara num Iugar seguro e estável e estar acompanhado de um relógio. O obturador deve ser retirado, e no final do tempo estipulado, deve ser recolocado no Iugar. É sempre aconselhável manter o registo dos tempos e dos resultados.

 

O Laboratório 

0 papeI para fotografia a preto e branco tem uma sensibilidade ortocromática à Iuz. Isto quer dizer que é sensível apenas a uma parte do espectro luminoso. Por isso, deve ser manuseado num laboratório, sob iluminação de segurança, (o papeI não é sensível a essa radiação).  Para carregar a câmara basta recortar um pedaço de papeI que caiba na face da caixa oposta à do furo e fixá-Io com um carregador próprio ou apenas com um pouco de fita-cola. Depois fecha-se a câmara. É necessário ter cuidado para que não se acenda outra Iuz, não se abra a porta, ou se saia do laboratório sem antes verificar que o papel está correctamente fechado na sua caixa e se o obturador está colocado na câmara.

 

Depois de realizar a exposição é hora de revelar os negativos. Para isso, mergulhamos o papeI em três químicos:

Revelador:  Este químico reage com os sais de prata do papeI que foram sensibilizados, e faz aparecer a imagem. 0 tempo de revelação varia consoante o fabricante, mas geralmente está entre os 60" e os 90". 

Banho de Paragem:  Este químico tem um PH ácido, o que faz parar imediatamente a acção do revelador.  0 papeI deve permanecer mergulhado no banho de paragem entre15"e 60"(consoante o fabricante). 

Fixador:  Este químico faz com que o papeI deixe de ser sensível à Iuz e possa ser normalmente manipulado. Depois de ter passado metade do tempo necessário à fixação, pode acender-se a Iuz do laboratório e analisar os resultados. 0 tempo de fixação depende da diluição utilizada e varia de fabricante para fabricante. Geralmente não ultrapassa os 120". 

 

Depois deste processo as imagens são lavadas durante alguns minutos em água corrente para que não permaneça nenhum resíduo dos químicos anteriores. 

Estes químicos apresentam-se em fórmulas concentradas e é necessário verificar as embalagens para conhecermos as diluições correctas e os tempos de vida, já que todos eIes são reutilizáveis. 

É necessário manuseá-Ios com algum cuidado, já que são algo tóxicos. É aconselhável o uso de Iuvas e avental. 

 

Digitalização

Quando as imagens estiverem secas, digitalizamos os negativos e num programa de edição invertemos as cores e espelhamos a imagem. Posteriormente podemos imprimir o positivo, ou imprimir o negativo num acetato e fazer uma impressão por contacto com o ampliador.

 

Análise dos Resultados

Como foi referido anteriormente, o único meio que temos para chegar a uma boa imagem é a tentativa e erro. Portanto é importante saber analisar os resultados. Preferencialmente, o nosso negativo deve ter o máximo possível de tons de cinza, entre o preto e o branco puros.  Se o negativo se apresentar muito escuro, quer dizer que teve Iuz a mais, ou seja, deve reduzir-se o tempo de exposição e vice-versa. Se a variação dos tempos de exposição não produzir resultados diferentes, é possível que a câmara não esteja corretamente construída - pode não ser completamente estanque à Iuz, ou o orifício pode ser grande demais, ou estar obstruído por alguma coisa. Se a imagem apresentar um formato estranho (oval, ou com «bicos»), provavelmente quer dizer que o orifício estenopeico não foi suficientemente Iixado. 

 

Algumas fotos captadas pela nossa câmara:


exposição de 20''

foto pinhole da sagrada pelicula
exposição de 20''


exposição de 30''

Conclusão

A fotografia pinhole pode ser frustrante e recompensadora simultaneamente principalmente para quem gosta de controlar todos os aspectos da fotografia; é como trabalhar sem rede: sem fotómetro, sem visor, e com uma abertura fixa. A curva de habituação é lenta e baseada no método tentativa-erro, mas depois de dominar a técnica é possível conseguir resultados bem interessantes, vejam os links de projectos pinhole!

 

 

Projectos:
Time In a Can
TrashCam Project 
T
he Pinhole Parcel Project

Referências:
Worldwide Pinhole Photography Day (resources)

 

Câmaras estenopeicas:
Zero Image
Ilford Pinhole Kit
Obscura da Ilford
Pinhole Blender
Stenoflex

Vemeer
Kurt Mottweiller
Skin Pinhole ( lentes para por a leica ou a hasselblad a fazer pinholes...)
Heartbeat ( uma pinhole com precisão relojoeira)

Corbis readymech (para download)

 

 

Um agradecimento especial à Magda e ao Domingos da imagerie

 

 

Primeira revelação E6

Depois de muita pesquisa e alguma preparação, processámos slides na Sagrada Película. Aproveitámos o bom tempo da semana passada para dar uma volta por Aveiro e arredores e queimar um Provia 100F e um Velvia 100.

 

Ingredientes

1 Velvia 100
1 Provia 100F
1 JOBO CPP-2 c lift
1 Tanque JOBO 2521
1 kit tetenal colortec E6 5L
1 Tetenal Protectan
1 par de luvas
 

Procedimento

1-Preparar os químicos

É possível fazer preparações parciais com o kit de 5L da tetenal (mas as medições têm de ser precisas), como esta química tem um tempo de vida curto depois de diluído decidimos fazer uma solução de 500ml para testes, deixando o restante concentrado. Nos químicos concentrados foi aplicado um pouco do gás da tetenal Protectan para minimizar a oxidação. Na medição dos vários reagentes foi usado uma proveta por químico para evitar contaminação.

Segundo o fabricante 500ml dá para processar 6 filmes.

 

2- Carregar os filmes no tanque

Uma espiral da jobo leva dois filmes 120, separados por um clip. Este procedimento tem de ser realizado em completa escuridão e convém ter cuidado com o autocolante que fixa o inicio do filme ao papel protetor.

 

3- Processar

jobo a bombar

A grande vantagem de usar um processador rotativo é a quantidade reduzia de química necessária para cobrir os filmes, no nosso caso são precisos 270ml para processar dois filmes 120. Para além disso o processador mantém a temperatura constante ao longo do processo.

O JOBO CPP-2 demora 90 minutos a estabilizar a temperatura nos 38º, para acelerar o processo foi adicionada água para as lavagens e para o banho maria perto dessa temperatura. O processo E6 tem pouca tolerância a variações de temperatura, pelo que tanto os químicos como a água usada em lavagens têm de ter 38ºC (± 0,5º ). O último banho no estabilizador pode ser feito à temperatura ambiente. 

Os químicos são tóxicos e irritantes em contacto com a pele e com os olhos, é aconselhável usar luvas durante todo o processo.

 

 OBS.Tempo
Pré aquecimento do tanquetanque carregado com filme sem quimica5:00m
Primeiro revelador 

 

 6:30m
Lavar  2:30m
Revelador de cor 6:00m
Lavar 2:30m
Branqueador/Fixador 6:00m
Lavagem final 4:00m
Estabilizador 1:00m
 

Quando os filmes saem do estabilizador têm uma aspecto viscoso e azulado, vão ganhando cor conforme vão secando.

Depois de secar os filmes foram digitalizados com o Epson V500, a seguir alguns exemplos (imagens sem edição):

 

Fuji Provia 100F
Fuji Provia 100F

Fuji Provia 100F
Fuji Provia 100F

Fuji Velvia 100
Fuji Velvia 100

Fuji Velvia 100
Fuji Velvia 100

Fuji Velvia 100
Fuji Velvia 100

 

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